O tempo todo

É tão difícil nos desligarmos de nossas vidas automáticas e realmente sentir o mundo à nossa volta. Não costumamos reparar no céu azul ou na beleza das nuvens, não sentimos o vento em nossa pele ou a sensação boa dos raios solares incidindo pela manhã. Tomamos o café apressados, não relaxamos com a água quente que inunda nossos banhos ou o arrepio ao andar descalço no piso frio. Estamos o tempo todo envoltos em sensações que não ligamos. Pensamos e criamos problemas vãos o tempo todo. Deixamos escapar a vida o tempo todo.

Reféns

Estamos tão presos a nós mesmos, tão reféns dos nossos próprios medos, que transformamos bênçãos em tormentas, sobrevivência em prisão, amor em indiferença.
Crescemos acumulando bens e menosprezando o próximo. Tentamos ser fortes e independentes, mas para isso queimamos toda a empatia como combustível. Transformamos futilidades em grandes problemas e a grandiosidade da vida em uma rotina monótona e, muitas vezes, infeliz.
Aprendemos a ser iguais e a apontar o dedo para o diferente. Desbotamos, evaporamos e perdemos a nossa essência. Éramos humanos, mas queríamos ser máquinas. Vendemos nossa alma por algo inanimado, mas jamais questionamos se as máquinas ousariam desejar, uma mísera vez que fosse, qualquer outra coisa que não tornar-se humano... 

Real

Sempre questionei o mar da sua imensidão e o céu da sua realidade. Sempre me pareceram tão distantes, quase como se existissem em outra dimensão e apenas participassem desta como espectadores.
Tantas coisas nos parecem tão distantes e inalcançáveis, tal qual os sonhos que se limitam a surgir apenas quando dormimos. E quando sonhamos acordados, sempre há algo para nos lembrar das nossas limitações. O que nos impede de alcançar nossos sonhos? O que falta para acreditarmos em nós mesmos?
Somos tão reais e grandiosos como o céu e o mar, ou apenas espectadores das nossas próprias vidas? 


Miopia

Não pense que a vida é só rotina ou que você é apenas mais um pedaço da sociedade. A vida de verdade está naquele espaço que nem sempre conseguimos enxergar, como a manhã ensolarada após a neblina ou o arco-íris que segue a tempestade. Atrás da poluição, do trânsito e da cobrança do cotidiano há muito mais da verdadeira essência da vida. Que tal começar a semana enxergando o mundo além das miopias da vida moderna?


Quebrados

Às vezes tentamos nos encaixar em algum padrão, como se fosse nós quem estivéssemos quebrados, quando, na verdade, é o mundo que desmorona à nossa volta.
Quantas vezes temi morrer engasgada nas palavras que não falei. Tantas vezes sufoquei minha essência com medo de me tornar exatamente o que não queria ser. Tentei agradar uma sociedade doente, simplesmente por não ser a pessoa perfeita que esperavam de mim.
Sempre lutei por ser aceita, mas, na verdade, não posso aceitar qualquer coisa que não me deixe ser eu mesma. Não vou me desculpar por palavras não ditas quando não me fizeram falta. Não vou tentar provar para ninguém que posso ser como eles, porque não faço mais questão de ser. Quero continuar assim, repleta de poesia, pois o que está além desta vida ninguém pode tirar.

Solução

Às vezes o mundo é um lugar difícil de habitar e o peso de tudo parece sufocar a alma. Tem dias que enfrentar a vida parece impossível, que somos pequenos e frágeis demais para lidar com uma mosca sequer. Contudo, se do veneno se faz o antídoto, do mesmo mal do mundo podemos extrair o bem que a Terra precisa. 
Às vezes um olhar compreensivo salva o dia. E são nesses dias que me permito pensar que a humanidade ainda poderia salvar o mundo, se ao invés do problema buscássemos ser a solução...


Carta aos imperfeitos

Perdoe-me pelos meus erros, por não ser perfeita. Perdoe-me os erros de português, a fala carregada de gírias, o fato de pensar estar sempre certa.
Desculpe-me se tomei o caminho errado, se me perdi em meus equívocos, se não parei no sinal de trânsito ou se chorei quando deveria sorrir.
Perdoe-me se senti demais, se deixei as emoções aflorarem e não pensei racionalmente, se caí enquanto corria ou se cheguei atrasada em um compromisso importante.
Desculpe-me a ligação errada, a falta de jeito, a tentativa fracassada de parecer segura.
Perdoe-me se venho errando diariamente na tentativa frustrada de acertar. Perdoe a ansiedade e o medo e a vontade de querer transformar tudo em um lugar melhor quando eu mesma ainda não sou o melhor de mim.
Desculpe-me se as pessoas desejam perfeição, mas humana fui e serei e, mesmo que relutante, aceito que jamais me tornarei o que não posso ser.
Perdoe-me, mundo, por ser humana demais.

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Criado por: Andréa Bistafa.
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